Uma viagem de autodescoberta e abertura de visão de mundo, trocas e diálogo, em Angola e Moçambique, através do projeto SolAfrica, da Faculdade de Teologia, em SP. Uma equipe, quatro áreas, várias experiências, colhendo impressões, histórias, emoções, vivências, compartilhando conhecimento e amor, em terras africanas.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
AS LÍNGUAS EM MOÇAMBIQUE
Oficialmente Moçambique fala português (com sotaque similar ao de Portugal); essa unidade linguística foi imposta pelo conquistador séculos atrás. Dessa forma ele poderia definir regras e ensinar seu modo de vida, para facilitar o processo de dominação. Para os africanos, foi mais uma língua para aprender. Aqui convivem diversas línguas: apenas para exemplificar, dependendo da província (o estado moçambicano) há uma língua local predominante. O xitswa, que estou aprendendo, é a língua predominante na Igreja Metodista e na região de Inhambane, mas não é a única, pelo contrário, são dezenas de línguas que convivem e predominam de região em região (veja o post com o quadro das línguas de Moçambique).
O que acontece na verdade, então, é que as pessoas se comunicam no cotidiano em sua língua local; o português é o idioma de unidade nacional (o presidente fez o discurso da Independência em português), não porque não se entendam em suas línguas, mas para que não haja um sentido de dominação de um grupo sobre os demais. Pelo menos é a percepção que tenho; com o fim da dominação portuguesa, eles bem poderiam ter banido essa língua daqui, mas não o fizeram. De fato, manter o país com a fala lusófona é importante do ponto de vista das relações internacionais, haja visto a parceria SOLAFRICA, que só é possivel graças ao idioma comum.
No entanto, e para confirmar o que afirmei sobre o cotidiano, o que se percebe em Moçambique é que a língua portuguesa não é falada de maneira natural, como parte da cultura. De fato, fala-se um português estrangeirado, e algumas pessoas têm um sotaque tão forte que não entendemos o que dizem. Da mesma forma, de nossa parte, se falarmos o português "brasileiro" também não seremos entendidos. Precisamos falar pausadamente, utilizar o particípio mais que o gerúndio (estou a falar, em vez de estou falando), não usar gírias e nem termos muito complexos, a não ser que os expliquemos.
Para um estudioso do Novo Testamento, isso me fez perceber como deve ter se dado o uso da língua grega na Galileia, por exemplo (mas tambem em outras regiões dominadas cujo o idioma local não tivesse relação com o grego): falava-se um grego limitado, apenas para tratar de comércio e com estrangeiros, mas no cotidiano era o aramaico a língua utilizada. Desse modo, é possível entender também que uma "helenização" da Galileia deve ter sido muito limitada, especialmente forte nas cidades helenísticas e romanas que foram fundadas pelos dominadores, e muito fraca nas áreas rurais e aldeias circunvizinhas, como acontece aqui.
Essa análise - simplista e leiga, na verdade - de uma antropologia linguística em Moçambique nos mostra como funcionam sistemas similares de dominação estrangeira sobre um povo que não viveu o processo de miscigenação e sincretismo cultural. Mais uma vez o Brasil é um caso a parte, e por isso a vivência em terras estrangeiras é tão rica, quando estamos abertos a perceber as diferenças e as respeitamos.
CELEBRANDO A INDEPENDÊNCIA
Por uma dessas felizes situações que a providência divina nos proporciona, nossa estadia em Moçambique coincidiu com o Dia da Independência do País, celebrado no dia 25 de junho, desde que as forças revolucionárias da FRELIMO deram ao povo africano seu legítimo poder. Na verdade, os portugueses não chegaram a resistir no processo; receberam um ultimato e deixaram o país em 24h. A guerra de Moçambique foi de forças internas pelo controle do país, das quais a Frelimo foi a que se sobressaiu.
Não tenho como avaliar os avanços políticos que o país viveu desde então, mas pelo testemunho da Blanches, que esteve aqui em 2006 e pelo que pude observar pessoalmente, há sem dúvidas muita coisa pra comemorar. Estradas asfaltadas, permitindo circulação de pessoas e bens com maior velocidade, aeroporto modernizado (mesmo que com capital chinês), fornecimento de energia praticamente sem interrupção, e acima de tudo, um clima de paz, onde crianças e idosos podem fazer as coisas próprias de sua idade, sem medo da violência pela guerra, e com liberdade.
As pessoas aqui são alegres, característica comum aos brasileiros, mas sabe-se que o povo moçambicano, a exemplo de outros povos da África, tem o espírito aguerrido, e se for necessário, vai à guerra, nem sempre por motivos justos (se é que a guerra pode ter motivo justo, a não ser, excepcionalmente, quando é para libertar-se do jugo opressor de outro grupo).
Blanches e eu fomos celebrar esse dia na praia, pois as aulas foram devidamente interrompidas. Pretendia me banhar nas águas do Índico, e aproveitar para comprar souvernirs moçambicanos em alguma feira, se abrirem, lógico. Quanto ao primeiro objetivo, as fotos dão conta de que apenas molhei as pernas. Ironicamente, o tempo estava nublado, um vento frio e as águas geladas não me convidaram ao mergulho; fiquei com receio de ter dor de ouvido. Mesmo assim, senti o Oceano Índico aos meus pés. Quem sabe numa próxima vez eu mergulhe e até adentre no mar de barco, como se faz no Brasil, para mergulhos de snorkel.
Uma curiosidade a respeito desse dia é a importância dele para as famílias moçambicanas, posto que é o dia de comer carne. Isso mesmo: comer carne em Moçambique não é coisa do cotidiano, mas de ocasiões especiais. Não se pode nem mesmo falar em um dia semanal; é extraordinário mesmo. Exceção honrosa estamos tendo no curso: todos os dias há algum tipo de carne, o que demonstra a importância e deferência com que estamos sendo tratados. Não à toa, os alunos e alunas estão adorando esse período também por isso, claro.
Depois fomos almoçar num restaurante - vazio àquela altura - e comemos carne, claro, ouvindo o discurso do presidente pela televisão, nas festividades da Independência, e com o privilégio de apreciar um coral composto de funcionários do local, dirigidos pelo proprietário, um sul africano casado com uma moçambicana.
Ao fim do dia, passamos no orfanato de Cambine, administrado pela Igreja Metodista em parceria com a Igreja da Alemanha, onde joguei futebol com os meninos de lá.
Com isso, estamos vivendo o cotidiano desse belo país, o que nos permite interagir bastante com a cultura e os costumes. Nzi Bongile (muito obrigado), Moçambique.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
VIAGEM PARA CAMBINE
As fotos abaixo mostram nossa viagem de Maputo a Cambine. Percorremos 500 km, rumo ao Norte, numa estrada litorânea, passando por cidades e vilarejos. Encontrei com a prof. Blanches na noite anterior, e saímos de madrugada, para essa jornada cultural.
Saída de Maputo às 5h da manhã. No centro a sempre atenciosa Rosa
No volante nosso querido Adolfo, e ao lado, um dos alunos do curso, Bernardo.
O nascer do sol no caminho de Cambine. Sempre uma visão estimulante para iniciar uma jornada
No caminho passamos por vários mercados de beira de estrada, em grande parte nas cidades. A maioria ainda nem estava funcionando.
Uma choça, uma típica construção de palha, que hoje é considerada o nível mais baixo de pobreza como lugar de moradia.
No caminho algumas surpresas, como uma loja da rede FKC. Na verdade Moçambique também recebe turismo, por causa das praias.
Por falar em praia, demos uma pequena parada para olhar o Índico, num dia bastante ensolarado.
Um bom trecho da estrada é dominada por coqueiros, abundantes da região. Me fez lembrar muito a mata do Nordeste.
Uma feira em funcionamento, já próximos a Cambine, na cidade de Maxixe.
As feiras e mercados pelos quais passamos são bastante rústicos, e nisso há uma diferença com o que temos em nossa terra.
O caminho pra Cambine, agora sem asfalto. Areia fofa, o que indica proximidade de praia.
Finalmente em Cambine, já na entrada do Seminário Teológico daqui.
Em breve outra sessão, mostrando mais de Cambine e principalmente das pessoas daqui.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
CHEGADA EM ANGOLA
Luciano e Helmut chegaram bem em Angola. Depois de um vôo de 15 horas,
com atraso em Johannesburgo, fomos recebidos por Pedro André Filipe,
assessor episcopal para relações públicas da conferência oeste da IMU e o
superintendente distrital revdo. Almeida Lemba. Ele já participou no
programa Sol-África como visitante no Brasil. Ficamos para duas noite no
Hotel Residencial Capital próximo a igreja.
Da esq. para dir: Rev. Almeida Lemba, Rev. Pedro André Filipe e Prof. Luciano Lima.
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Chegar a Cambine foi uma experiência renovadora. Cambine é um vilarejo,
que não é muito diferente de uma pequena cidade rural brasileira. As pessoas
são acolhedoras, convive-se com os animais de maneira tranquila, não há
movimento de veículos, o chão é de terra batida ou fofa, dependendo da área.
Cambine tem um complexo de edifícios ligados à Igreja Metodista: um orfanato, o
seminário, casa de hóspedes, casa pastoral, centro de convivência, que estão do
lado de uma escola, e circundados por várias casas de alvenaria simples para
nós, boas casas para os locais. Uma casa simples é na verdade uma choça, que
estaria na base social daqui, como um barraco na favela está no Brasil.
As pessoas têm sido fenomenais na forma de nos tratar. A prof.ª Blanches
já era conhecida de muitos, por isso a receberam como uma amiga, mas mesmo eu,
que estou aqui pela primeira vez, tenho sido muito bem tratado, com carinho e
já fiz vários amigos, como o Bernardo, o Teixeira, o Armindo e o Amansio, jovens
pastores que enfrentam o desafio do ministério pastoral em comunidades de 800 a
1000 pessoas.
Estou hospedado na casa de missionários alemães, que chegam na
quarta-feira, e não posso reclamar: tenho cama macia, tela nas janelas e
portas, e se não tem banho quente, tenho fogo para esquentar a água e tomar
banho de caneca (coisa que já fiz muito
na minha vida). A prof.ª Blanches está em outra casa, com a pra. Maísa,
missionária brasileira aqui em Cambine.
Um problema que aprendemos a conviver aqui não é a falta de luz, mas de
água após 19h, pois o abastecimento é cortado, por motivos que ainda não me são
muito claros. Então tomamos banho até a hora do jantar, ou então só no dia
seguinte.
Falando em jantar, a comida tem sido muito boa, nada tão diferente que
eu possa chamar de exótica: frango, arroz, salada de repolho, alface e tomate,
peixe frito inteiro com molho, e o famoso xime, um tipo de angu, que é
branco porque o milho é branco. Disseram que eu ia emagrecer aqui, mas corre o
risco é de engordar. Só o café é que não tem, aqui se toma muito chá. No café
da manhã (chamado aqui de pequeno almoço ou mata-bicho) come-se ...
As frutas aqui são as mesmas tantas que comemos no Brasil: banana,
tangerina (trangerin) foram as que vi. E tem o côco, muito comum na
região, mas que ainda não vi.
E assim vamos convivendo com essa gente que tem a liberdade como
princípio de vida, enfrenta muitas dificuldades, mas que é alegre e musical.
Sobre isso falarei num próximo post.
APRENDENDO GISWA
Estar em um país diferente, onde se fala outro idioma, me desafia a
aprender a falar na língua local. Moçambique me desafiou desse jeito, pois
apesar da língua oficial ser o português, as pessoas falam mesmo é a língua de
sua etnia ou grupo tribal. E não gostam que chamem de dialeto, pois essa foi a
forma dos colonizadores menosprezarem as línguas faladas por esses povos antes
da dominação europeia.
Pois bem, ouvir as pessoas conversando em giswa ou outra língua
local me deixa agitado; quero aprender, nem que sejam expressões. Já aprendi
diversas, mas com um problema fundamental: minha memória auditiva é fraca
(talvez por não ser de uma cultura propriamente oral), por isso tenho que
anotar em meu caderno as expressões que aprendo. Cantar também é uma boa forma
de fixar as expressões, na verdade um dos meios mais antigos pelo qual a
tradição oral tornou possível passar aprendizado entre as gerações.
Seja como for, esse é um dos aspectos que mais me fascina aqui, e vejo
como eles gostam de ver meu esforço em aprender. Isso nos aproxima e gera um
clima de confiança, que é tão importante nesses casos. A pra. Maísa, que tem se mostrado nossa principal articuladora de logística, me presenteou com uma Bíblia em giswa. Claro que fiquei muito agradecido e emocionado e vou usar nas aulas.
Agora vou ficar por aqui, porque nzi nani wurongo (estou com sono).
gi Pelile (boa noite)
gi Pelile (boa noite)
domingo, 17 de junho de 2012
CHEGADA EM MOÇAMBIQUE
Meu primeiro dia em Moçambique teve todos os ingredientes que eu curto num caso desse: estava sozinho, contando com a boa acolhida das pessoas, tendo o "estranhamento" e o fascínio pelo diferente como parceiros íntimos. Abaixo uma série de fotos que marcaram esse dia:
A estranheza de andar do lado esquerdo do carro, na mão inglesa.
Adolfo, primeiro amigo a me receber, com quem tenho conversado muito sobre as culturas.
Igreja Metodista em Bangala, Maputo
Culto da manhã, cerca de 800 pessoas presentes
Celebração pelo Dia da Criança Africana. A criançada fez tudo, num culto maravilhoso.
O coral de crianças arrepiava, e os adultos deliravam
Irmão Titos, que me ajudou na tradução das partes do culto falado em xitsua, o dialeto do grupo predominante na Igreja Metodista de Moçambique
A liderança da Igreja, após o culto. Da esq. para a dir.: Pra Aida, eu, Pr. João Damião, sua esposa Filimina e o filho do casal no colo.
ATRAVESSANDO O ATLÂNTICO
Junte o alemão mais brasileiro de todos, o priest in black e o pastor que é carneiro, e você terá um grupo bem animado para atravessar o Atlântico. Como a Blanches foi antes, os três remanescentes embarcaram juntos. Foram cerca de dez horas de voo bem interessantes, vendo filmes, ouvindo música, conversando e rindo, comendo, e cochilando de vez em quando. Abaixo uma sequencia desde o aeroporto de Cumbica - SP até Johannesburgo, onde nos separamos.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
DESPEDIDAS E ENVIO
Faltando três dias pro nosso embarque, com exceção da Blanches, que vai antes, tivemos momentos de agrados e atenção da parte da turma do 4º ano matutino e da faculdade como um todo. Abaixo as fotos que marcam esses momentos.
Aqui, a maior parte da turma do 4º ano matutino. Nela a Blanches vai ser a patronesse (estão chamando de matrona, eu achei esquisito) e eu o paraninfo, portanto, o agrado tem razão de ser.
Nesta, apenas as meninas da turma e ainda a presença do Paulo Garcia, Reitor da Fateo. Clima descontraído e alegre.
Essa já foi no culto desta quarta, em que o José Carlos (Zequinha, ao lado do Paulo) foi o pregador da noite, falando sobre a semente e aqui o Paulo apresenta o grupo que será enviado. Falta o Helmut "Bochecha Inchada" Renders. A Magali (1ª à direita) não vai pra África, mas é a pessoa responsável pelos projetos de parceria e intercâmbio, então nada mais justo que estar com o grupo no momento do envio. Ah, o Zequinha vai pro Equador, na versão latino-americana do SolAfrica, o SolAndino. É a Fateo apoiando a formação teológica em diferentes frentes.
Aqui, a maior parte da turma do 4º ano matutino. Nela a Blanches vai ser a patronesse (estão chamando de matrona, eu achei esquisito) e eu o paraninfo, portanto, o agrado tem razão de ser.
Nesta, apenas as meninas da turma e ainda a presença do Paulo Garcia, Reitor da Fateo. Clima descontraído e alegre.
Essa já foi no culto desta quarta, em que o José Carlos (Zequinha, ao lado do Paulo) foi o pregador da noite, falando sobre a semente e aqui o Paulo apresenta o grupo que será enviado. Falta o Helmut "Bochecha Inchada" Renders. A Magali (1ª à direita) não vai pra África, mas é a pessoa responsável pelos projetos de parceria e intercâmbio, então nada mais justo que estar com o grupo no momento do envio. Ah, o Zequinha vai pro Equador, na versão latino-americana do SolAfrica, o SolAndino. É a Fateo apoiando a formação teológica em diferentes frentes.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
SOBRE ANGOLA E ARQUIVOS VISUAIS DA DIÁSPORA AFRICANA
Enquanto não estamos de fato nas terras de Angola e Moçambique, continuam as pesquisas. A história de Angola guarda semelhanças com a de Moçambique. É curioso que as fontes em geral só percebam essas duas nações a partir da chegada dos portugueses. Na verdade, a história da África pode ser considerada em dois momentos: antes e depois do séc. XV. A chegada dos europeus foi responsável por mudanças, dilemas, aprofundamento de divisões e até mesmo do processo de dominação que passou a marcar a luta entre etnias.
Seja como for, Angola partilha com os demais países africanos séculos de invasão e posteriormente a luta pela libertação de sua terra. Gostaria de compartilhar dois links importantes:
1 – O site Minha Angola [http://www.minhaangola.org] do qual transcrevo abaixo uma breve história de Angola;
2 – O site The Atlantic Slave Trade and Slave Life in Americas: a Visual Record (O tráfico negreiro no Atlântico e a vida dos escravos nas Américas: um registro visual), disponível no site http://hitchcock.itc.virginia.edu/Slavery/search.html. Os autores do projeto, Jerome S. Handler e Michael L. Tuite Jr., reuniram diversas imagens e as distribuíram em várias categorias. São mapas, gravuras e outros aspectos que indicam a situação do tráfico negreiro e a diáspora africana.
Mapa de Angola e Congo de 1662, presente entre os arquivos do site The Atlantic Slave.
INTRODUÇÃO PARA UMA BREVE HISTÓRIA DE ANGOLA Autora Filomena Malva
Para se contextualizar o conceito globalizante do país que hoje é Angola, ter-se-á de se consi-derar a diversidade de povos, cada qual com os seus modelos linguísticos e culturais, que de-marcaram a regiões territoriais, até a chegada dos portugueses que a unificou num espaço co-lonial, tornado independente a 11 de Novembro de 1974 enquanto nação.Angola do período pré-colonial
Neste período destacamos os espaços sócio-culturais bantos, com os povos Cuissis e Cuepes, e banto [sic], com os povos Ovimbundu, Ambundu, Bakongo, Lunda-Tchokué, Ngangela, Ovambo, Nhaneca, Humbe, Herero, Axindonga e Luba.
Angola do período colonial – 1483 a 1900
O período colonial inicia-se com a chegada de Diogo Cão à foz do rio Zaire, Soyo, quando, em 1483, se estabeleceu o primeiro contato com o chefe tribal de Nsi (país) Kongo, para relações comerciais que permitiram uma cristianização, não interiorizada daquele povo, que tinha sob a sua alçada político-econômica o Ngola, chefe de Ndongo, espaço que se estendia desde o rio Dande ao rio Kwanza.
Nessas interações políticas e diplomáticas, esteve sempre presente a intenção de se realizar o comércio de escravos que servisse os projetos de Portugal no Brasil, apesar do Ngola atrair a preferência dos portugueses, através de chamamento para a extração da prata da Matamba que não existia.
Foi uma estratégia política para levar os portugueses para espaço mais interior, já que os chefes tribais estavam interessados nesse tipo de troca comercial.
oube a Paulo Dias de Novais a concretização da chegada, em 1575, à ilha de Luanda, por lhe ter sido dada carta régia (documento oficial da época que só os reis podiam conceder) para que se apropriasse de um novo espaço colonial.
Em 1576, Paulo Dias de Novais passou para terra mais firme (planalto de Luanda), onde deu origem a uma povoação e exerceu o cargo de primeiro governador de Angola.
Luanda era um lugar protegido pela ilha e bem localizado para penetração para os espaços interiores, por via do rio Kwanza, para que a apropriação da referida prata da Matamba se fizesse.
Mas, a medida que foram entrando para estabelecer contatos com os chefes tribais, os portugueses encontraram as suas concordâncias na concretização tráfego negreiro.
Rio Kwanza, o maior rio totalmente angolano. Pintura de Neves e Souza. Disponível em: http://www.angolabelazebelo.com/2010/06/pinturas-de-neves-e-sousa-11/
E, no século XVI, com este tipo de atividade comercial, foram-se construindo os presídios (fortes portugueses para realização de trocas) de Massangano, Muxima, Cambambe, Ambaca, Pungo-a-Ndongo, Caconda, Hanha, Nkoge e Novo Redondo, apoderando-se, gradualmente do território que viria a constituir uma parte de Angola, que se estenderia até Benguela no sentido litoral sul, com a construção de uma capitania (distrito da antiga ex-colônias) autônoma de Luanda e com um porto comercial importante para circulação de escravos, tanto para Luanda quanto para o Brasil.
Dada a importância desta atividade econômica, no século XVI os holandeses tentaram expulsar os portugueses de Luanda, Benguela, Soyo e barras dos rios Bengo e Kwanza. Contudo, o tráfego para as Américas (Brasil e Antilhas) não decresceu, a não ser no século XIX com da abolição da escravatura no Brasil, o que permitiu um crescimento dessa mão-de-obra no interior da própria Angola, se bem que ainda em 1840 se tivessem verificado exportações para o Brasil e Cuba.
O abrandamento das circulações negreiras deu lugar ao trabalho forçado dos contratados, jovens que trabalhavam essencialmente nas roças de café (terrenos de cultura situados ao norte), desde o final do século XIX e durante todo o século XX, até a independência do território angolano, já que os sobas (chefes de tribos africanas) convencionavam com os contratadores (espécie de traficantes), sob a aceitação da política portuguesa.
Angola de 1900 a 1960
Com as discordâncias republicanas portuguesas, em relação ao regime monárquico e após a implantação da República em Portugal, Angola entra num período de renovação da atuação político-econômica. Assim, foram construídas escolas e tomada a iniciativa da exploração dos diamantes, tendo sido criada, em 1922, a Diamang (Companhia dos Diamantes de Angola), com a sua grande atividade extrativista na Lunda.
Nos finais dos anos 30, inicia-se de forma regular a produção de café, cana-de-açúcar e milho, para fins de exportação.
Entre 1939 e 1945, procede-se a exportação do sisal, de que se salientam as plantações do planalto do Huambo, do Cubal (leste), do Kwanza Norte e de Malange.
A exportação de café, logo após a 2ª Guerra Mundial, cresce e abre um novo ciclo econômico significativo até 1972, ano em que a exploração do petróleo de Cabinda mostra os seus primeiros resultados.
Outras riquezas são exploradas em Angola, a do minério de ferro, pelo que em 1957 é fundada a Companhia Mineira do Lobito que centrava a exploração das minas da Jamba e Cassinga, entregues posteriormente a multinacional alemã Krupp.
Angola às portas da descolonização
Nos anos 40, começa a emergir em Angola, por questões ligadas a política internacional, a questão da descolonização, tendo sido publicado, em 1956, o primeiro manifesto do movimento independentista MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola).
No início dos anos 60, aparecem, com os mesmos objetivos, as organizações, UPA/FNLA, MPLA e UNITA, encetando movimentos de luta armada contra a política colonialista do regime ditatorial de Salazar. Para Angola vão recrutados muitos militares que suportaram, belicamente, aquele espaço colonial, permitindo o desenvolvimento da exploração industrial e agrícola.
Angola Independente
Com a implantação do regime democrático em Portugal, a 25 de Abril de 1974, a política portuguesa perspectiva a descolonização efetiva do território angolano, entrando em negociações com os movimentos independentistas e, após os acordos de Lusaka, Bicesse e Alvor, Angola toma o estatuto de nação em 11 de Novembro de 1975. Mas os movimentos pró-libertação desencadearam uma guerra que durou trinta anos desde a tomada de posse de Agostinho Neto à morte de Savimbi em 2002.
Bibliografia
Fontes Primárias:
Brito, Domingos de Abreu e – Inquérito à Vida Administrativa e Económica de Angola e do Brasil – Coimbra, Imprensa da Universidade, 1931
Cardonega, António Oliveira – História Geral das Guerras Angolanas – Tomos I, II, III- Biblioteca Geral das Colónias , 1942
Monumenta Missionária Africana – Vols I, II, III, V
Fontes Secundárias:
Delgado, Ralph- História de Angola – Vols I, II, III, IV – Banco de Portugal
Lopes, E. Corrêa – A escravatura – Subsídios para a sua História – Agência Geral das Colónias. Lisboa, 1944
Redinha, José – Sociedades Étnicas e Espaços Sócio-Culturais
www. br. monografias.com /trabalhos/guerra-civil-angola
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